TEXTO QUE RECEBI DO FSMMG
Sumário:
Politizar o debate das prisões pela esquerda
Ação
Política e método
Ética. Entre os meios e os fins
O ‘caráter complexo da ética’. Uma chave de leitura
Ética. Entre os meios e os fins
O ‘caráter complexo da ética’. Uma chave de leitura
Conjuntura da Semana em frases
Eis a
análise.
Politizar o
debate das prisões pela esquerda
Nos últimos dias, as prisões resultantes do desfecho da Ação Penal 470, popularmente
conhecida como 'mensalão', tomou conta do debate nacional.
Embora tenha sido decretado o encarceramento de vários
personagens da esfera privada – banqueiros, empresários e publicitários –, o
foco centrou-se nos personagens da esfera pública, particularmente das
lideranças de proa do PT– José Dirceu e José Genoíno.
Outro personagem, Henrique Pizzolato, embora menos
conhecido, também ganhou destaque em função de sua fuga.
O debate ganhou forte combinação entre o passional e o
ideológico. Para muitos se confirmou a tese de conspiração contra o PT.
Tese, segundo esses, reforçada pelo fato de que até hoje o ‘mensalão do PSDB’ –
esquema de desvio de recursos públicos para a campanha de Eduardo
Azeredo em 1998 – não foi julgado.
Para setores da esquerda, a ação do ‘mensalão’ caracteriza-se
como “julgamento político” – e até mesmo como um “julgamento de exceção”. José Dirceu e José Genoíno se
consideram presos políticos. Segundo essa análise, se colocou em marcha uma
orquestração capitaneada pela grande imprensa com ativo papel de Joaquim
Barbosa, presidente do STF, para
desmoralizar o PT.
É o próprio Lula, a liderança
maior do PT que
fala em conspiração. Nesses dias, nos poucos comentários que fez sobre a prisão
dos companheiros do PT, afirmou: “Na hora que provar que está
errado, puna quem quer que seja, seja meu parente ou adversário. A lei é para
todos. Isso vale para nós, isso vale para eles. Agora me parece que a lei
parece que só vale para o PT”. Na sequência e próprio do mundo da
política em transformar fatos em leitmotiv para
disputas, disse: “A resposta que a gente vai dar para eles é garantir o segundo
mandato da companheira Dilma Rousseff".
Como se pode perceber, o debate em torno do ‘mensalão’ assumiu
ares extremados de passionalidade e ideologização. Um tema “quente” e que
dificulta análise mais serena.
Uma coisa, porém, é certa, assim como é ingenuidade pensar que o
julgamento no STF tenha
se orientado apenas pela “tecnicalidade” como diz Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF;
ou seja, pensar que não haja posições política no interior do STF ou
que a grande mídia não tenha insuflado o debate em torno do tema, também é
ingenuidade pensar que o que aconteceu foi acidental e ocasional.
A Ação Penal 470, o mensalão, é resultante
de uma prática que se tornou corriqueira na política nacional adotada por todos
os partidos – ou quase todos – que se passou a chamar de “caixa 2”. É preciso
reconhecer que mesmo os partidos de esquerda, particularmente o PT, aceitaram,
assimilaram e incorporaram as regras do jogo do poder. O que sucedeu com o
‘mensalão’ e suas derivações é regra corrente na estruturação, financiamento e
mobilização pela disputa do poder.
Politizar o debate das prisões de José Dirceu, José Genoíno e
outros como sendo vítimas de uma grande conspiração é na verdade
despolitizador. Reduzir o debate ao tema da “conspiração” é falsear o tamanho
do que aconteceu. A politização correta pela esquerda é se perguntar porque se
chegou aonde se chegou.
Ação
Política e método
Nessa perspectiva, é sugestiva, a reflexão de um dirigente do PT, Valter Pomar, para quem “a prisão de Dirceu,Genoíno e Delúbio,
resultam de um duplo movimento: por um lado, da ação combinada da direita
partidária, do oligopólio da mídia e de seus tentáculos no aparato
judicial-policial; por outro lado, de um conjunto de ações, opções, omissões e
erros cometidos pelo PT e aliados de esquerda”.
Segundo ele, “setores do PT agem como se a prisão de Dirceu e Genoíno constituísse
um ‘acidente de percurso’”. O mesmo, diz, para quem pensa que “as manifestações
de junho, as sabotagens e rupturas na base aliada, o pequeno crescimento do PIB
e a greve de investimentos do grande Capital seriam ‘pontos fora da curva’”.
Para Pomar, “a
prisão de Dirceu e Genoíno faz
parte de uma tragédia anunciada, pois, de um certo ponto de vista, ambos
simbolizam uma estratégia baseada em concessões aos inimigos. Concessões que
para muitos pareciam acertadas, quando o inimigo aparentemente recuava. Mas
agora está claro que recuaram para melhor saltar, sobre nós, com uma fúria
brutal”, afirma.
Para o dirigente do PT, “setores do
PT concentram sua energia em denunciar a ilegalidade das prisões e da AP 470,
prestando solidariedade aos presos e buscando inclusive maneiras de anular o
julgamento. Sem prejuízo de tudo o que se pode e deve fazer neste sentido,
temos que entender que a prisão de dois ex-presidentes do Partido é, na melhor
das hipóteses, uma metáfora do que nos aguarda, a todos e a todas nós, se o PT
não mudar seu ‘método’ de fazer política. Mais precisamente, precisamos mudar
de estratégia”.
O que Pomar quer dizer é que o PT paga
por ter adotado o modus
operandi que sempre condenou.
Algo semelhante e destoando do conjunto das lideranças do PT disse Olívio Dutra. Fundador do PT, figura
histórica e respeitada, de forma corajosa afirmou nos dias pós-prisão de seus
companheiros de partido que o desfecho da Ação Penal 470 foi
uma resposta aos processos de corrupção que, historicamente, permeiam a
política nacional, independentemente de partidos.
Segundo Olívio, “até pode ser questionado
[decisão do STF], mas as instituições têm seus funcionamentos, o que não se
pode admitir é o toma-lá-dá-cá nas práticas dos mensalões de todos os partidos,
nas quais figuras do PTparticiparam”. O ex-governador gaúcho
disse que tem respeito à história de lutas de José Dirceu e Genoino, mas
que em nada o passado de combate à ditadura militar abona qualquer tipo de
conduta ilícita: “Há personalidades que fazem política por cima das instancias
partidárias e seguem seus próprios atalhos. Respeito a biografia passada dessas
figuras que lutaram contra a ditadura, mas (a corrupção) é uma conduta que não
pode se ver como correta”, critica.
Olívio Dutra pauta
um tema que foi paradoxalmente abandonado pela esquerda que é o da ética na
política. Nesses dias, qualquer menção ao tema da ética passou a ser considerado
‘agenda udenista’ – referência à UDN, partido de
direita dos anos 50 que fez do moralismo sua bandeira central no debate
político. Dessa forma desqualifica-se o debate.
Ética.
Entre os meios e os fins
A ideia de que o ‘mensalão’ não passa de uma conspiração da
direita é simplista e encobre os erros da esquerda. É evidente e inegável o uso
político do julgamento do mensalão – recurso constitutivo ao pesado jogo
político, porém, o que está em jogo é recolocar em debate a radical crítica –
que a esquerda sempre fez – ao modus operandi secular
de apropriação do público para a consecução de interesses privados – no caso
dinheiro público usado por agrupamentos políticos em troca de sustentação e
apoio aos seus interesses.
Uma das leituras do acontecimento do ‘mensalão’ não assumidas
publicamente, mas aceita nos círculos internos do mundo da política é que ele
foi necessário para garantir governabilidade e realizar os avanços que o Brasil
precisava. Nessa concepção trata-se de um mal menor em função de um bem maior –
a ideia de que os fins justificam os meios.
O ‘mensalão’ do PT teria sido um
mal necessário para avançar uma agenda de reformas sociais no Brasil,
diferentemente do ‘mensalão’ do PSDB ou mesmo da
compra de votos no congresso operada pelo PSDB para
garantir o mecanismo da reeleição de FHC que foi feita
para preservar os interesses da continuidade da agenda do mercado. Ou seja,
ter-se-ia aqui um atenuante ao “nosso” mensalão. O “nosso” foi em função do social,
o “deles” em função do mercado.
Emerge aqui uma questão: A instauração de políticas sociais, o
bolsa-família, a política de cotas, a mobilidade social dos mais pobres para
cima, fornecem um “salvo conduto” aos erros de seus dirigentes? Tudo pode ser
justificado ou atenuado porque o PT, no governo,
passou a adotar políticas sociais antes inexistentes?
Essa concepção esconde a recorrente ideia aceita no mundo da
política de que a ética dos fins justifica os meios. Esse raciocínio foi visto,
por exemplo, na aliança entre o PT e o Maluf por
ocasião das últimas eleições municipais e foi brandido por respeitado
intelectual, Emir Sader. À época disse:
"o fundamental é derrotar a 'tucanalha' em São Paulo”, justificando a
aliança com Maluf. De
acordo com essa argumentação vale tudo para derrotar o outro, inclusive aceitar
em seu palanque quem sempre defendeu ideias radicalmente opostas e, mais grave,
praticou atos ilícitos no poder.
Muitos consideram que em função de objetivos considerados
maiores, os fins justificam os meios. Essa postura acaba dando sustentação à
tese daqueles que admitem e até mesmo consideram normal que no mundo da
política é aceitável uma ‘zona cinzenta de amoralidade’. Entre os que sustentam
essa tese está o filósofo José Arthur Giannotti[nota
1]. Segundo ele, “na medida em que a política, entre muitas coisas, consiste
numa luta entre amigos e inimigos, ela pressupõe a manipulação do outro, desde
logo suporta, portanto, certa dose de amoralidade”.
Giannotti diz
que a política, assim como “qualquer jogo competitivo sempre requer um espaço
de tolerância para certas faltas”. Segundo ele é “preciso diferenciar o juízo
moral na esfera pública do juízo moral na intimidade, pois são diferentes suas
zonas de indefinição. No primeiro caso, o juízo moral se torna inevitavelmente
arma política para acuar o adversário e enaltecer o aliado, de tal modo que a
investigação da verdade fica determinada por essa luta visando a vitória de um
sobre o outro”.
Outros, entretanto, defendem que a ética é imprescindível na
política, que a política não comporta e não pode aceitar tudo, que há limites.
No debate sobre a ética na política, afirma o jurista Dalmo
Dallari [nota 2]: “Princípios não são metais que se
fundem. Então, a negociação, a concertação tem
limites. Não posso me aliar a alguém que quer o oposto do que quero, que
defende uma ideia que oposta à minha, que pauta as suas atividades por
princípios que são opostos aos meus. Então há um limite nessa busca de
composição de forças”.
O ‘caráter
complexo da ética’. Uma chave de leitura
Uma contribuição para problematizar o tema do ‘mensalão’ e o que
tem acontecido nesses últimos dias é olhá-lo a partir do método da complexidade
sugerido por Edgar Morin que propugna que nada
está isolado, todas as ações reverberam e apresentam consequências. Ainda mais
sofisticado, Morin fala
no princípio do ‘caráter complexo da ética’ que se manifesta naquilo que chama
de ‘ecologia da ação’.
Diz Morin: “Desde o momento em que um
indivíduo empreende uma ação, qualquer que seja ela, esta começa a escapar de
suas intenções. Ela entra num universo de interações e finalmente o meio
ambiente apossa-se dela num sentido que pode se tornar contrário ao da intenção
inicial. Com frequência a ação retorna em bumerangue sobre nossa cabeça”,
escreve ele no livro Introdução ao pensamento complexo (Porto
Alegre: Sulina, 2005, p. 80-1).
Morin alerta
que “uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica, depende
também dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas,
culturais, políticas que podem ajudar o sentido daquilo que é a nossa intenção.
Dessa forma, as ações podem ser praticadas para se realizar um fim específico,
mas podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos”.
O que o pensador francês sugere é que “boas intenções” ou mesmo
ações feitas em nome do suposto “bem comum” podem resultar no oposto ao
desejado. Segundo ele, “a ecologia da ação implica que não é suficiente apenas
ter boa vontade. Temos de tentar examinar as condições em que se dá a ação, e
então, de acordo com a necessidade, poderemos segui-la, ou transformá-la, ou
ainda abandoná-la. Portanto, há duas ideias importantes na ética: uma, quando
nos decidimos por uma ação pelo bem, fazemos um balanço dos efeitos de nossa
ação, e assim, ao tornarmo-nos conscientes de seus efeitos, podemos rever
nossas ações ou decisões. Em segundo lugar, a ideia de que é preciso traçar uma
estratégia de ação, ou seja, ficar atento aos elementos novos e às informações
que se somam à situação”.
Diz Morin: “Penso no período em que vivi
durante a guerra, ou no pós-guerra, na minha relação com o comunismo, quando
conheci pessoas ou militantes que achavam que trabalhavam para o bem da
humanidade sem perceber que trabalhavam, ao contrário, pela sua escravidão.
Isso, contudo, pode estender-se a todas as atividades. Quantas pessoas não
acreditam trabalhar para o bem, sem perceber que na realidade estão sendo
manipuladas”?
Aqui entra a ação de José Dirceu, Genoíno e
tantos outros que aceitaram o jogo ‘mensalão’ na convicção de que se tratava de
um mal menor e mesmo necessário para o avanço das reformas no Brasil. Não se
deram conta, como dizMorin, que
“boas intenções” ou mesmo ações feitas em nome do suposto “bem comum” podem
resultar no oposto ao desejado.
A atitude de quem se nomeia de esquerda é ter coragem de olhar
de frente a amplitude e o significado dessas prisões. Validar o discurso de que
não se pode criticar os dirigentes do PT pelos
equívocos que cometeram porque isso significa jogar “água no moinho da direita”
é recusar a essência do que significa ser esquerda.
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